Uma pequena cerimônia deveria encerrar toda disputa: o vencido se aproxima, cumprimenta o vencedor e reconhece o resultado. Pode fazê-lo de coração apertado e com um sorriso forçado – ninguém exige felicidade de quem perdeu; exige-se apenas que não leve a bola embora.
Desafio de aceitar derrotas
Nas eleições, a cerimônia tem consequências maiores. A bola pertence a milhões de pessoas, o campo é o país e as regras precisam sobreviver aos jogadores. O candidato que só aceita o resultado se vencer transforma a participação dos eleitores numa formalidade: eles podem escolher, desde que seja seu nome.
A reação de Flávio Bolsonaro à derrota presidencial de 2026 trouxe novamente o assunto à mesa. Depois do resultado, anunciou que pediria a anulação do pleito e declarou ser impossível reconhecer o resultado nas condições em que ocorreu. Ao fugir para os Estados Unidos, chegou a se autoproclamar ‘presidente eleito’. Questionamentos eleitorais podem ser legítimos e devem ser examinadas pelas instituições competentes. Mas quem pretende desqualificar uma eleição tem o dever de apresentar provas; a própria decepção não serve como evidência.
Exemplos históricos
Nossa história oferece episódios suficientes para uma reflexão sobre essa dificuldade de aceitar o placar. Um dos mais expressivos completará 71 anos em 11 de novembro.
Em 1955, Juscelino Kubitschek venceu a eleição presidencial com cerca de 36% dos votos. Ficou à frente de Juarez Távora, apoiado pela UDN; de Ademar de Barros; e de Plínio Salgado. Não havia segundo turno: bastava chegar em primeiro. João Goulart foi eleito vice-presidente em votação separada. Era assim que funcionava o jogo.
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